Com medo da violência, classe média esvazia manifestações O novo perfil de manifestações sociais, com menor volume de pessoas e maior frequência de ações violentas entre os que protestam e a polícia, tende a afastar a classe média desse tipo de ato. Foi o que ocorreu em 7 de setembro e o que pode vir a ser observado nos próximos eventos do gênero, na opinião de cientistas sociais ouvidos pelo Valor.
Para o sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Baía, a violência continuamente divulgada nos atos desestimula adesões. Nos protestos de sábado, estavam presentes os grupos mais violentos, não somente entre os manifestantes, mas também entre as forças institucionais , disse. Só quem vai aos protestos agora são aqueles que valorizam o confronto, a violência como forma de proteger sua representação , disse, acrescentando que a disposição, nos atos em junho, era diferente. Eram pessoas movidas por um sentimento de mudar o país , avaliou.
Cláudio Couto, cientista político e professor do curso de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), acredita que a menor participação popular nos protestos era esperada. Ninguém se mobiliza o ano inteiro, há um refluxo normal nesse tipo de manifestação , disse. A tendência, então, é que os mais radicais permaneçam. No Rio, tanto os manifestantes, mais agressivos, quanto a polícia, pouco preparada, afastaram os cidadãos comuns, que desejavam apenas expressar sua opinião. A resposta das forças institucionais no Rio foi mais violenta , afirmou. Há pouca habilidade da polícia local para lidar com esse tipo de ato.
Para Túlio Velho Barreto, cientista político da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), de Recife, o ideário anarquista do grupo Black Blocs, um dos organizadores das manifestações nas redes sociais, ganhou força em um país em que há uma crise de representação dos partidos. A crise do paradigma de esquerda é mundial, mas no Brasil se agrava porque os partidos são frouxos e pouco programáticos , disse.
Citando o caso recente da absolvição do deputado Natan Donadon, Barreto disse que população brasileira sofre de um acúmulo de impunidade e cinismo na atividade política no Brasil.
Há uma descrença generalizada da atividade política dentro do partido. O que não é necessariamente bom. Até hoje, não se fez democracia sem partidos , afirmou.
No Recife, conta Barreto, os protestos contaram com a participação de pequenos grupos.
Algumas pessoas reunidas na Praça do Derby, centro do Recife, entraram em confronto com a polícia. Eles usaram máscaras, foram abordados por policiais e se recusaram a se identificar, afirmou. Um outro grupo tentou se articular pelas redes sociais para sair sem roupa pelas ruas. A Secretaria de Defesa social já tinha se manifestado dizendo que iria prender todo mundo que saísse nu. O movimento perdeu força .
Na opinião de Barreto, os impactos na popularidade do governo Dilma Rousseff devem ser limitados. É diferente do que ocorreu após as manifestações de junho, quando houve um grande desgaste dos governantes , afirmou.
Já o cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marcus Ianoni aponta para uma leve recuperação na imagem de Dilma e para a continuidade do desgaste político que ronda a figura do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), como os principais sinais dos protestos durante o dia da Independência.
Para Ianoni, o menor volume de pessoas nos atos pode refletir o fato de que a população entende que o governo federal está buscando soluções. E isso, na prática, ajuda a melhorar a imagem da presidente.
O governo tem conseguido dar respostas à essência das demandas de junho, relacionadas aos serviços públicos de transporte, educação, e saúde , disse. As pesquisas mostram que Dilma da queda de popularidade observada em junho, durante o auge dos protestos, e o PIB [Produto Interno Bruto] do se reverteu parte da queda de popularidade observada em junho, durante o auge dos protestos, e o PIB [Produto Interno Bruto] do segundo trimestre, com alta de 1,5% [em relação ao primeiro trimestre], mostrou que nossa economia não está perfeita, mas não está tão trágica como a oposição gostaria , afirmou.
A lógica não é a mesma no caso do governador do Rio. Cabral, diferentemente de Dilma, não conseguiu dar esse tipo de resposta , afirmou. O fato de o PT ter deixado um vácuo no cenário político fluminense, abrindo espaço para lideranças do PSOL e de outras bandeiras com diretrizes políticas mais agressivas, também contribuiu para impedir a recuperação da imagem de Cabral.
Para o professor da UFF, os confrontos violentos nos protestos do Rio refletiram a insatisfação com as respostas do governo do Estado em relação às demandas dos protestos de junho, bem como uma repressão institucional mais violenta aos atos.
A ausência de uma espinha dorsal política na coordenação dos protestos foi um dos pontos mais evidentes em Brasília e no Rio, segundo Ianoni. Para ele, o perfil desorganizado dos atos ocorridos no sábado deve prosseguir nas próximas manifestações.


















